‘A mulher-amarelo-envelope…’
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A mulher-amarelo-envelope entra sozinha no branco-chantili. A tarde parda olha a cena da janela do banheiro enegrecido, onde a luz que erradia é de pêlos claros rentes da curva-negra divisiva.
Molhada de esperma esbranquiçado, viscoso branco-chantili, ela se banha na espuma em que entra, desatenta, com unhas carmim na louça encardida; o arrepio das costas de quando joelhos repolhudos tocam a água fria, o cheiro de sabão no branco que se expande por todos os lugares.
Ela não sabe que as cores a esperam por semanas. Às vezes até por meses, mas ela nunca se banha à tarde. Só o negro-azulviche da noite aproveita a clara pele de arrepios quando joelhos repolhudos abraçam o plexo das águas de chantili.
O calor do ventre é muito para uma só noite, que se repete na semana. Mas à tarde, as cores dividem-se em outros calores, para o ventre agüentar o máximo de chantili e brilho no cristal da pele, na água fria.
A mulher molha parte das costas, mergulha por completo todos os seus espessos pêlos, seus grudados-negros-molhados sobre a carne. Da porta a voz diz Sem susto.
A cor de envelope nas águas da banheira assusta, mas não vira o rosto para encarar a voz na tarde, respondendo Não estou pronta.
A voz da tarde sussurra estridente o vento que entra frio no labirinto Tem pressa. A mulher não tem, no quase branco.
O amarelo-envelope começa a se dissolver alaranjando o chantili da banheira. Os olhos fechados mostram o viscoso carmim das pálpebras contra o sol, e as unhas na banheira refletem o carmim da tarde que entra pela janela. O enegrecido das paredes e o cheiro de sabão se somam, indo de, para; através.
A boca da mulher se abre. Brancos sobre brancos sujam-se. A voz estremece. A voz é só carne.
A voz parece trêmula, à porta, ao reparar em tantos brancos. Incontida, invade o banheiro e resolve mergulhar nas cores de envelope. A boca sorri ao ver a voz entrar na água, arrepiando os pêlos das pernas. A boca mostra o fúcsia das gengivas, o branco-sêmen dos dentes no branco-chantili. No frio da água, a cor da voz, enegrecida como a umidade, pesa sobre os joelhos repolhudos; pressão que mistura. O fúcsia e o branco-sêmen já dividem iguais o mesmo campo, e o fúcsia-movente separa o sêmen para a entrada de uma cor opaca, a cor da voz.
A cor de envelope mistura-se com a cor enegrecida, o carmim da tarde nas unhas carminiza o enegrecido da parede. O branco-chantili começa a ter manchas cor de envelope enegrecido das quais já não se sabe a fronteira. O branco-sêmen e o fúcsia-movente já estão todos de cor opaca e a curva negra já é círculo que furta o querer. Os negros-molhados-espessos escorrem pelo chão do banheiro e em pouco o chão é sob o preto sob as cores. Dissolvendo-se, a voz é quase espuma e a mulher tenta usá-la para mais. A mulher pega a voz para si e carrega para dentro dos pulmões todas as cores da banheira. Num único lance, forte em que o carmim sulca rios, em outros brancos mais opacos, o sabor do urro envia a explosão sistêmica na tarde.
Explicando a FOME
Faltou uma explicação:
Em busca da FOME faz parte de um projeto ainda em andamento e pretende, vez por outra, ser um lugar onde publicarei textos que dialoguem com a temática maior da FOME. É claro que não pretendo nesta breve explicação dizer de qual ou quais fomes comento. Os textos, antes de tudo, farão isso por mim.
Como nossa geração está fadada ao mundo da resposta rápida, da velocidade, do movimento; não há mais como produzir ou pensar a literatura sem nos ligarmos às ferramentas que propiciam um diálogo mais dinâmico entre escritor, texto e leitor. É claro que um blog não esgota toda uma possibilidade de mistérios e segredos, toda a expectativa que a produção de um livro encerra. O melhor da ceia é sempre servido depois, em momento oportuno.
Pensando por esse prisma, decidi dar alguns “pratos de entrada”, de fato uma primeira “busca”, em que pretendo estabelecer um contato mais íntimo entre meus textos e os prováveis leitores deste blog. Busca não só de contato, como de diálogo, de velocidade, de respostas que talvez a internet possa trazer para um processo criativo lento.
Em busca da FOME não possui, ademais, a mesma regularidade de publicações que a de blogs mais frequentados, uma vez que ainda não estou profundamente mergulhado na velocidade e no movimento. Textos demoram a ser escritos por mim, levando às vezes uma década – como é o caso do primeiro texto publicado aqui. Partem de uma profunda reflexão e de correções exaustivas, quase diárias. Isso faz com que mesmo os textos aqui postos como pratos de entrada já não sejam mais os mesmos horas depois de postados. A busca é constante e initerrupta, o que cria a sensação de que os leitores, mesmo com o diálogo e com a resposta rápida, podem, em algum momento, estar conversando com retratos que se desfocam mal a foto é tirada.
Por essa razão, Em busca da FOME não se prende a uma regularidade de publicações. Mas a existência do blog me permite mergulhar profundamente na FOME, e testar, de vez em quando, algumas imagens, algumas construções. Espero que os leitores comentem e dialoguem, que busquem comigo a FOME e que, por esse caminho, eu consiga me inserir na velocidade da minha geração.
Bem-vindos, boa leitura e obrigado pela troca.
Danilo Barcelos.
‘Era a primeira vez que…’
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a Fernando Marques Alvarenga
Era a primeira vez que via, colorida e maior que as outras. Grande, batia as asas pesadas no ar, soltando cores que ele apanhava, com olhos abertos, no contraste-azul-lambuzado. Desenhava-se no ar. O olhar, cheio, se desviava.
Nos volteios, a borboleta ia sobre, até. Pousou, enfim, e fez surgir atrás de si um busto. Os seios fizeram surgir os cabelos que fizeram surgir os ombros que fizeram surgir os olhos. Um encanto maior que a borboleta.
Era a primeira vez que via, colorida e maior que as outras. Nessa dupla descoberta, a boca sem ação secou e um calor subiu à garganta. Preso, o olhar acabou a borboleta e os seios: cores.
A borboleta fez surgir para a morena o menino: cores.
Ela riu com uma claridade farta. O menino respirava forte, de bermuda de algodão-grosso-marrom-biscoito. Sorriu! A cor subiu e iluminou mais forte o azul-céu-lambuzado. Trouxe o amarelo-ovo sobre os dois e intensificou o vermelho-ferrugem do chão. Intensificou a cor da janela, o vermelho-unhas da morena, cheio de gestos.
O menino seguiu as cores que lhe convidavam para a aquarela. Uma voz cortou o ar, fazendo-o colorir os degraus da porta, por sobre um mendigo. Entrou na casa, a morena estendeu-lhe a mão e lhe guiou para, entre, pelo fundo corredor.
As sombras-azuis apagaram as luzes. Um forte cheiro invadia as narinas do menino, que via na penumbra as saias de algodão-fino-manteiga, coxas, um calor, paredes verde-couve. Ouvia o desconhecido e tinha o carmim-coração disparado, apertado entre as mãos. A morena, entre os longos cachos do castanho, sorria. Apertava-lhe a mão, limpando o úmido da palma.
Chegaram a uma porta de onde saía pouca cor. A morena tirou da penumbra o ruído-marrom, apresentando ao menino outras viscosidades densas: badulaques, colares, brincos, vidros, fotos, anéis, vestidos! Na cama, um urso de pelúcia-marrom-biscoito, um lençol flores-mingau.
A mulher, então, passou-lhe a mão pelos ombros, cheirou-lhe o pescoço, beijou-lhe o macio lábio-arfante. Olhando, a mulher nem era tão mais velha. Nem ele era tão mais novo. Deitados nas flores-mingau, ambos se entregaram a um possível amor-cereja.
A semana corou de cereja a rotina: o menino acordava, saía, encontrava, adentrava. Era amor, ele pensava. Amor-cereja. Ele levava-lhe flores, cheirava-lhe os cabelos, dormia desfalecido nos moles braços: afagos. Ao perfume, o menino fez juras de amor das mais profundas. Tudo amor-cereja.
Mas, um átimo de vermelho trocou o tom de lugar. No meio das coisas da seqüência, o menino viu o amarelo-surpresa. Não encontrou o de costume. O vermelho do chão tomou o ar. Tudo era vermelho-ferro. Foi então que o menino notou que faltava algo na frente da casa. Algo que nunca reparou.
Adentrou com pressa a casa e avançou pelo roxo-corredor até a porta aberta. Viu. De olhos arregalados, o mendigo subia na morena! Ria. Ria alto, cada vez mais alto. Soltava urros e a cama rangia forte. Uma violência vermelho-ferro que fez a vista do menino embaralhar-se. As coxas e os castanhos da morena por todos os lados da pequena cama, o ursinho jogado no chão, os urros do mendigo e a morena que gemia alto. O menino viu tapas no rosto, tapas no corpo e sentiu o coração bater violento no peito. O sangue fervia-lhe: ferro.
O mendigo já mostrava as costas nuas, as calças abaixadas, as coxas sujas. O suor escorria pelos braços finos que se apoiavam nas flores. Gritou alto até cair desfalecido, mole marrom-lama sobre a morena. Respirou fundo e tossiu. A morena passou-lhe a mão nos cabelos-quase-azuis-molhados e olhou por sobre o homem o menino à porta. Olhou friamente o menino que não era tão mais novo.
O amor-cereja dava lugar a um laranja, um forte laranja viscoso como um caldo grosso, um denso laraja-angústia. Foi então que o menino, gelado, virou-se e saiu correndo.
Viu tudo laranja-angústia, até o sono que custou a chegar. Na cabeça, a cada instante, a cena laranja se repetia de forma mais intensa. Laranja o mendigo que ele nunca notara, o mendigo que gemia, o olhar laranja da morena. Como um carrossel que acelera e confunde formas, a noite foi um conjunto laranja-intenso.
Na manhã seguinte, o menino saiu determinado. Ainda era tudo laranja-angústia: ruas, terra, poeira. O gosto laranja-amargo na boca. Uma procura. Na mão, um saco laranja e um visco-garrafa.
O mendigo, estatelado, estava de volta à porta, que agora era sem rotina.
Estendo a garrafa, a mão pequena rompeu o silêncio Toma, pra você moço! O mendigo agradeceu. Deu um gole fundo, como se para matar uma longa sede.
Instantes passaram e o mendigo se retorceu, babando. A boca espumava um visco amarelo-ovo e os olhos-vidros-sujos piscavam sem parar. Sacudiu-se o pobre tarde demais.
O menino, olhando tudo com atenção, virou-se, saiu devagar. Depois, correu. Um medo do mundo tomou-lhe e ele correu.
Em casa, encostou-se do lado de dentro da porta, o coração batia. Não sentia culpa. Tinha nas mãos um sentimento diverso que vinha arrebentando as veias de seu corpo. Era fome, ele pensou. De um salto, sua cara de susto desfez-se num sorriso e uma gargalhada encheu pulmões e foi ouvida em casa, na rua, dona de um completo azul.